Autismo: Rigidez de pensamento.

Por que é tão comum a rigidez de pensamento no autismo?

As pesquisas revelam que a rigidez de pensamento, ou dificuldade para flexibilizar o pensamento, é comum nos casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA).  

Como terapeuta ocupacional, especializada em integração sensorial, penso na rigidez de pensamento como um caminho de segurança, adotado pelo cérebro mediante situações de possível vulnerabilidade.

Um aspecto bastante comum no TEA são as alterações do processamento sensorial, decorrentes da dificuldade do cérebro interpretar adequadamente os estímulos que recebe por meio dos diferentes sistemas sensoriais, acarretando em comportamentos autísticos, como, por exemplo, tampar os ouvidos frente ao som alto quando há hiper-reatividade sensorial auditiva.

Indivíduos com disfunção do processamento sensorial se sentem deslocados mediante os feedbacks que recebem socialmente, com “caras e bocas” denunciando o estranhamento em relação às suas ações, sejam elas falas ou comportamentos, como, por exemplo, o indivíduo que recebe um carinho e reage devolvendo um tapa. Havendo hiper-reatividade sensorial tátil, a percepção do toque superficial (como um carinho) é percebida de forma acentuada, e até mesmo dolorosa. Quando o indivíduo com hiper-reatividade sensorial tátil recebe um carinho e “sente” que recebeu um tapa, e responde com um tapa naquele que entende que o bateu, a reação social é de estranhamento e até mesmo de confronto, porém, na sua perceptiva, ele não está errado em bater naquele que “lhe bateu”. Ao longo da vida, diante de tantas experiências semelhantes a esta, ele percebe que tem dificuldade para interpretar adequadamente suas experiências sensoriais e que isso pode deixa-lo em situações indesejadas, resultando em sentimentos de vulnerabilidade, sem esquecer dos transtornos de ansiedade comuns nesta população. Entendo a rigidez de pensamento como um recurso para evitar se sentir vulnerável.

Este caminho de segurança influencia, por exemplo, a alimentação, levando, muitas vezes, à seletividade alimentar, também comum no TEA.

Sob esta perspectiva, abordo a rigidez de pensamento pensando em atividade de ação e reação, do tipo “pensa rápido”, de modo a evitar recorrer ao caminho de segurança, mas traçar novos caminhos, sempre prezando pelo desafio na medida certa, característico da Terapia de Integração Sensorial.

Considerando as particularidades e singularidades de cada caso, atividades como bater palmas, jogar bola ou se equilibrar em superfícies instáveis podem ajudar. Vou exemplificar melhor a primeira: a) bater palmas pode começar com “parabéns pra você” (atividade com uma etapa); evoluindo, quando possível, para bater palma em dupla, frente a frente, batendo palma na linha média (linha imaginária que divide o corpo ao meio), característico do “parabéns pra você”, associado a bater palmas à frente, contra as palmas das mãos da pessoa com quem está realizando a atividade (atividade com duas etapas); podendo evoluir para, na posição sentada, com palmas na linha média, palmas à frente, bater as palmas das mãos nos joelhos (atividades com 3 etapas – linha média, à frente, linha média, joelho). A atividade de jogar bola exige antecipar o resultado e apanhar a bola no momento em que ela chega, de modo que não há tempo para pensar. E, se equilibrar em superfícies instáveis exige antecipação do resultado, ajuste postural… Todas essas atividades favorecem, também, a velocidade de processamento sensorial, que se refere ao tempo em que o cérebro recebe um estímulo, ele transita pelo “labirinto” dos sistemas sensoriais, até que a área devida se identifica, interpreta, e dá uma resposta. Diante disso, é possível observar que são intervenções que viabilizam “criar ramificações do caminho de segurança”.

Espero ter conseguido contribuir.

Abraço fraterno,

Thais Caroline Pereira.

Terapeuta Ocupacional.

04.01.2021

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